
Enunciações de Primavera Há momento em que me sinto instigado a olhar pela janela e desejar dizer o que penso. No entanto, prefiro não comentar o azedo da terra. Então, imagine acordar as quatro da manhã com a preocupação intensa para revisar 216 páginas de um manuscrito científico coberto de rasuras, equívocos, citações inacabadas e ideias para serem completadas. O autor de hoje se deu o luxo de brincar de escola e se permite esquecer das palavras, tal qual não aperta JAMAIS a mão do porteiro do prédio da esquina, com medo de pegar a gripe suina ou Aids. Imagine, então, eu ficar gripado sem sair de casa, com tanta coisa a fazer. Me vejo preso por uma caneta big (azul) junta ao enorme pedaço de papel pardo - entre o telefone, o computador e o compromisso de não deixar passar a data da publicação que muitos esperam. Entre fios de telefone, o copo d'água, a cadeira que não gira direito, a noite mal dormida parece não ter fim. Existe, assim, a insana bobagem de achar que isso seria em prol de mais um feito.
A vida vai raiando - sem sol na manhã paulistana que deixa o frio gelado bater na cortina - e a gente vai curtindo como pode aquele som pequeno de fundo, que urge da radiola da vizinha vovó: é o rei Roberto Carlos cantando o embalo de "Eu te amo". Seria mesmo uma declaração de amor, ornada por repetidas badaladas de um relógio.
Com isso, ora aparece apenas o convite sem confirmação ou ora se destaca, sem dor, o desafio público da burocracia do governo. Parece que não há mais tempo nem espaço para se viver quieto na Metrópole?! A coisa está esgotada pela máxima relação com banqueiros, empresários e governantes e a gente pede pra sair, para querer pensar e só consegue, de fato, perder de vista um sopro mínimo de dizer em boa sonata caliente:
Hello baby, good morning. Let´s fuck?!
Escrito por Wilton Garcia às 10:50
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