Sem imagem
Hoje não tem imagem!
Imagine apreender a imagem: nada de fotografia, desenho, pintura, gravura, infografia ou outro código imagético?
Apenas foi lançado o espaço da palavra - sem alternativas. Nada de linguagem sincrética nem misturas expressas em uma lógica formal da escritura. Grau zero para a imagem - reprovação. As formas podem ser editadas, porque hoje não há vestígios visuais. Feche os olhos, porque não será permitido ver. Somente a ordem do verbo (ou do som) poderá ajudar na constituição da representação. Seria o limite? a fronteira? É tentar apagar a sensação de dependência visual, pois pretende-se retraduzir (reconduzir) o código intersemioticamente. Agora, decretou-se que não haverá aqui imagem para dissipar a mensagem. Neste caso, é preciso refletir sobre o meio, o suporte, o dispositivo. Tudo muito brando e seco erguerá a perspectiva instaurada: hoje não tem imagem.
E se, por acaso, alguém pedir flores, elas precisam ser descritas por escrito: na pecularidade de quem sente, remexe, descreve e anota a simbiótica simbologia do termo. Equaciona-se a condição adaptativa de (re)pensar sua estrutura genética, equiparada entre o caule, as pétalas, a cor e, até mesmo, o cheiro. Porque hoje não tem imagem!
Imaginei ele forte sentado ao lado de uma pedra perto de uma grande cachoeira. Um homem que mora na pedreira e vence a vida guerreira das injustiças. Era um momento mágico que eu podia observá-lo apenas de longe. Seria, talvez, uma distância segura para ele ficar à vontade, em seu manto. Fiquei na espreita! Num gesto magnífico, ele se debruçou sobre a mata para buscar conforto. Quem sabe estive cansado de atenter tantos pedidos de socorro, já que era jovem demais para tamanha responsabilidade e desafio. Estava sozinho, nesta clareira alva e mansa, que me (re)cobria numa enchente turva de arrepios e trovoadas - de chamas em bravas brasas de fogo quente. Tudo parecia mágico demais e nem poderia ser compreendido como um sonho. Porque era recorrente demais para qualquer dúvida de vertigem.
Eu vi, testemunhei, registrei: aquilo poderia ser mero fruto odára de minha imaginação. Era bastante nítido esse encontro - embora ele mantivesse a distância intocável e necessária para deleite e minha venerada apreciação. De forma cuidadosa (curioso), tentei me aproximar um pouco mais, mas seria impossível resgatar ali qualquer tipo de contato, para além do permitido - à distância porque ele é sublime. Ali, de longe, somente me caberia deslumbrar sua capacidade de irradirar o vulto claro, em duas faixas cintilantes que saiam de suas costas fortes. Um homem lindo, cheio de encantos que eu apenas admirava bem avastado, como quem procura a verdade no coração rebatido daquele sujeito tão honesto e/ou justo. Tão justo que a justiça ressaltava-se em força ardente - gravado na história dos orixás era Xangô de Aruanda, rei de Oyó. Kaó!
Escrito por Wilton Garcia às 10:05
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